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Comportamento

Sobre Águias e Galinhas

Águias e Galinhas
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Você sabe o que é uma fabula?

Fábula é aquela história que sua avó ou sua mãe contava. Aquela história que sempre tinha um animal esperto como protagonista. Tipo a tartaruga e o coelho. É uma narrativa curta, que usa a fantasia para contar uma história aparentemente simples, mas que no final se mostra carregada de significados e implicações morais.

Hoje, lendo um artigo sobre a depressão que, segundo a Organização Mundial da Saúde, atinge mais de 400 milhões de pessoas no mundo, me deparei com um dado muito significativo para esta coluna; segundo a OMS o número de mulheres afetadas pela depressão é 50% mais elevado que o dos homens.

Analisando este dado que, com certeza, se fundamenta na educação repressora e nos obstáculos que a mulher encontra em uma sociedade, ainda, fortemente marcada pelo machismo, pelo patriarcado e pelo moralismo. Não pude deixar de lembrar uma fábula que ouvi há muito tempo. A fábula da águia que foi educada para viver como galinha.

Não sei quem é o autor, mas estou convencido que ela pode sim explicar, pelo menos em parte, o grande número de mulheres vitimadas pela depressão.

Era uma vez uma ave que nasceu em um galinheiro. Por nascer e crescer entre as galinhas, ela viveu acreditando que era uma galinha. No entanto, essa ave se sentia diferente. Ela olhava para a vida que as galinhas levavam e se perguntava como era possível ser feliz ali, presa em um galinheiro, sem conhecer nada no mundo. Ela passava horas e horas olhando para o céu e desejando voar para bem longe daquela vida medíocre.
Um dia, ela tomou coragem e abriu as asas, decidida a voar alto. Ah! Pobre avezinha. Foi fisicamente castigada pelo pai e execrada pela sociedade do galinheiro. Passou a ser vitima do bulling. As outras galinhas riam dela. Passou a ser apontada como louca, sem vergonha, sem classe. A mãe galinha, que também não conseguia entender a filha, aconselhou que ela mudasse. Que aceitasse a vida como ela é. Que não desejasse ser diferente.
Acuada e querendo agradar ao grupo ela fechou-se. Esqueceu seus sonhos, desejos e nunca mais arriscou um voo mais alto. Passou a viver uma vida triste e sem sentido. Não sorria, não brincava e não via graça em nada. Passava a vida imersa em angústia. Nem alimentar-se com o milho que era farto, ela queria.
As outras aves, sem entender o que de fato se passava, recriminavam dizendo que ela era uma ingrata. Que não tinha motivos para ser infeliz. Ouvir aquilo deixava a nossa ave triste, ainda mais triste. Aos poucos o que era angústia se transformou em depressão e ela só pensava em morrer.
Um dia, decidida a colocar fim àquela tristeza toda, ela caminhou até um penhasco bem alto. Fechou os olhos, as asas e se lançou no espaço, mas à medida que ela caia, o instinto de sobrevivência falou mais alto do que as vozes que diziam que ela era louca. Sentindo a morte que se aproximava, ela abriu as asas como nenhuma galinha nunca tinha feito e como todas diziam que nenhuma galinha jamais conseguiria fazer. As asas abertas fizeram com que ela planasse e parasse de cair. Surpresa ela demorou um tempo para descobrir o que estava acontecendo. Mas foi um tempo curto. O vento no rosto. A sensação de liberdade fez com que ela, contrariando tudo que sempre tinha ouvido sobre as galinhas, abrisse ainda mais as asas e voasse em direção ao céu que ela sempre desejou.
Enquanto alcançava aquilo que passou a vida ouvindo ser impossível, ela descobriu sua verdadeira identidade, ela não era uma galinha. Ela era uma águia. Uma águia que tinha passado a vida inteira sendo educada para parecer galinha. Uma águia que na ânsia de ser aceita pelo grupo tinha construído uma existência infeliz. Uma águia que precisou chegar à beira da morte, para descobrir todas as possibilidades da vida.
E ao assumir as rédeas da sua vida, a águia que nunca foi galinha, teve que enfrentar ventos e tempestades, mas se livrou da angústia e da depressão. Muitos continuavam dizendo que ela era louca. Que era uma ingrata. Que tinha se perdido. Mas a opinião deles já não importava mais. De vez em quando, quando a saudade apertava, ela baixava até o galinheiro para rever os parentes, mas quando cansava da visita, se despedia dos pais e voltava para as alturas onde era seu verdadeiro lugar.

Como todas as fábulas essa também traz uma lição: Antes de diagnosticar a si mesmo com depressão ou baixa autoestima primeiro tenha a certeza se você não esta, de fato, cercada por idiotas, pois, podem as águias chegar até onde estão as galinhas, mas as galinhas, por mais que esperneiem e desejem, jamais chegarão até onde estão as águias.

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

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