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Comportamento

O inferno nem sempre são os outros

Jean Paul Sartre, filósofo francês morto em 1980 e tido como pai do existencialismo, escreveu uma frase que até hoje é repetida por muitos: “O inferno são os outros”.

Em uma sociedade como a nossa onde a egolatria impera, tornou-se comum apontar o outro como o grande responsável por tudo o que existe de errado no mundo.

É verdade que o mundo está um caos: é difícil pagar as contas, encontrar alguém em quem confiar, atender às expectativas do mundo (da moda, inclusive) e até respirar. Mas, nem sempre, o outro é o responsável pelo “inferno”. Até porque “o mundo” é uma realidade criada por todos nós. Não é o trânsito que é ruim, mas os motoristas que formatam esse trânsito. Não é a política que não funciona, somos nós que escolhemos políticos errados e incapazes de fazer a máquina política funcionar de maneira ética e eficiente.

Ensinar filosofia não é tarefa fácil, até porque é impossível ensinar filosofia. O que posso, como professor, é tentar ensinar o aluno a filosofar. Nas minhas aulas, gosto de recorrer às fábulas e deixar que meus alunos, no final, reflitam e entendam (ou não) a mensagem contida na narrativa.

A história do velho samurai talvez ajude você a entender a importância de cada um de nós nos fatos que marcam o cotidiano da sociedade.

'Há muito tempo no Japão antigo existia um Velho Samurai que morava em um pequeno vilarejo. Foi um grande general do Imperador, lutou inúmeras batalhas e guerras, mas, como seu país estava em paz, decidiu se refugiar em um pequeno vilarejo onde ensinava filosofia. Ali ele era respeitado e admirado por todos.

Certo dia chegou ao vilarejo um jovem samurai arrogante. O caminho do velho samurai com o jovem samurai se cruzou em uma casa de chá. Por um mal entendido da garçonete, que serviu antes o velho samurai, o jovem se sentiu agredido e, para mostrar a todos que ele também era importante, desafiou o velho samurai para um duelo.

A cidade inteira se juntou na praça para assistir ao combate. Todos que conheciam o velho samurai e sabiam da sua agilidade com as armas tinham certeza que ele iria trucidar o jovem desafiante que, cheio de fúria, xingava e cuspia no velho samurai.

Nunca se assistira a tamanha ofensa a uma pessoa. Era consenso que tal arrogância merecia uma punição exemplar. Desejando uma violenta reação do velho samurai, a multidão enfurecida e ávida por vingança, gritava pedindo sangue! Entretanto, apesar de todas as ofensas, o velho samurai permaneceu quieto. Não esboçou nenhuma reação, nem mesmo quando seu desafiante, ainda mais enfurecido, passou a atirar-lhe pedras.

Vários minutos se passaram até que o jovem e arrogante samurai, frustrado, desse as costas e fosse embora, gritando que o velho era covarde e se vangloriando da vitória.

O espanto tomou conta da multidão. Por que o grande general não reagira? Por que se deixara humilhar assim diante de todos? Estaria com medo do desafiante?

Sem conseguir se conter, um aluno que nutria pelo mestre uma grande admiração, se apartou da multidão e indagou:

- Mestre, o senhor poderia tê-lo vencido com apenas um golpe e ter calado aquele verme, por que ficou calado, imóvel, sem revidar?

Com um olhar paciente, o velho general olhou o aluno e utilizando um tom de voz que podia ser ouvido por todos, questionou:

- Se alguém lhe oferecer um presente e você não aceitar, a quem o presente pertence?

- Ele pertencerá a quem me ofereceu. – Respondeu o aluno.

- Exato - Completou o general. - O mesmo acontece com alguém que te insulta, blasfema, xinga. Se você não aceitar isto, tudo retorna a quem lhe ofereceu. A paz não é presente de Deus assim como a guerra não é presente do diabo. A paz, assim como a guerra, é construída por cada um nós. A honra não está em vencer seu oponente com apenas um golpe, mas sim em ensinar-lhe o respeito através de superioridade moral. A maior batalha é aquela que não acontece.'

Pense nisso na próxima vez que sentirem uma vontade louca de revidar a um desafio que mexa com sua vaidade. Quando um não quer, dois não brigam e, às vezes, é melhor estar em paz do que estar com a razão.

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.