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Comportamento

O Sentido Trágico da Vida

O Sentido Trágico da Vida

Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me. (...)
Tudo funciona como sempre.
Um dia inteiro se desata à minha frente. (...)
Visito o banco. (...) Passo nos escritórios. (...)
Tenho pressa. Compro um jornal. Comprometo-me ao extremo, combino encontros
a que nunca irei, pronuncio palavras vãs,
minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá.
(Carlos Drummond de Andrade
– MORTE NO AVIÃO)

Diante da comoção que tomou conta do Brasil com a morte de Eduardo Campos, passei um tempo pensando em um texto que pudesse servir como base de reflexão sobre a questão da morte.

Impressionante o tempo que os jornais, rádios e revistas dedicam à morte. Os programas vespertinos, os tabloides sensacionalistas e mesmo os telejornais ditos sérios, investem pesado na exploração do sofrimento e na a espetacularização das pompas fúnebres.

É óbvio que tal cobertura não contribui em nada para mudar o paradigma da morte que construímos; o fim de tudo, a dor, a partida que leva com ela toda a alegria, as cores e nos cobre, para sempre, de preto.

Assistindo tal espetáculo midiático fica fácil entender a afirmação do sociólogo Roberto da Mata: “No Brasil, a morte mata, mas os mortos não morrem!”

Sob os holofotes da mídia, a dor por aquilo que deveria ser natural se transforma em produto oferecido a consumidores ávidos por sofrimento. O interesse capitalista, partidário e a necessidade de conteúdo que preencha a grade da TV apresenta a morte de tal maneira que ela se torna não um fato da vida, mas a parte mais importante da vida.

Todos que ouvem a história lamentam a morte inesperada.

É claro que a ideia de finitude assusta a todos nós. Ninguém, depois de tanta labuta, quer acabar para sempre, mas não existe morte inesperada. Nascemos sabendo que a morte nos espreita e que um dia ela nos abraçará e nos levará, sabe-se lá para onde!?

Percussor da filosofia existencialista, o filósofo Miguel de Unamuno (1864 – 1936) escreveu uma livro intitulado "O SENTIMENTO TRÁGICO DA VIDA", obra na qual tenta explicar este desejo irracional pela imortalidade que se apossa de todos os seres humanos.

Irracional porque todos nós nascemos sabendo que vamos morrer, mas mesmo assim nos apegamos demasiadamente ao material como se isso pudesse nos oferecer um sentido para a vida. Como se as conquistas pudessem afastar de nós o destino pré-determinado.

O homem é um ser para a morte. Se há algum sentido nisso tudo, é resposta que procuro sabendo que só terei quando chegar a minha hora de embarcar.

Mas, pior que pensar na minha morte, é pensar na separação daqueles que amamos. A ideia nos desestabiliza. A perda faz com que a vida que nunca teve sentido se torne ainda mais difícil.

Dói demais. E se há uma coisa com a qual nós seres humanos não conseguimos lidar é com a dor. Por isso o consumo exagerado de analgésicos.

Mas, por mais que a indústria farmacêutica se esforce e invista, ainda não conseguiu produzir analgésico forte o suficiente para nos livrar da dor da perda.

Diante de dor tão grande, analisar a questão da morte de forma superficial pode até parecer deboche ou desrespeito àqueles que vivem ou já viveram a situação. Essa não é a minha intenção.

Sei que um dia chegará minha hora. Sei que um dia chegará minha vez de enterrar um ente querido. Não sei como será, mas sei que é necessário me preparar para isso e, talvez, a melhor maneira seja encarando a situação não como coisa abstrata, mas como fato concreto.

Viver nada mais é que uma grande espera. A vida é como o saguão de um aeroporto. Chegamos sabendo que o tempo ali está contado. A questão é o que faremos durante o período de espera. Alguns começam a ler livros e revistas sem saber se chegarão até o fim. Quantas vezes somos interrompidos no meio da leitura de um artigo por demais interessante? Quantas vezes somos obrigados a levantar sem concluir a conversa com o desconhecido da cadeira ao lado?

Preparamos a criança para a fase adulta. O jovem para o mercado de trabalho. O adulto para a velhice. Temos que nos preparar também para a morte e a melhor maneira para fazer isso é pensar nela como fato consumado, viagem inevitável e aproveitar cada segundo antes que o embarque aconteça.

Ignorar a realidade, achar que não vai acontecer conosco, nos leva a deixar para depois o abraço ao ser amado, o perdão a quem ofendemos e o desfrute de tudo aquilo que a vida nos oferece enquanto a dona morte não vem.

Pense nisso.

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

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