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Comportamento

A Serpente de olhos verdes

Serpente de olhos verdes

A brilhante interpretação de Bruno Gagliasso na série DUPLA IDENTIDADE nos revela como o hábito de julgar pelas aparências facilita a ação de psicopatas e sociopatas, que usam o outro como um meio para atingir um fim.

Na série escrita pela autora Glória Perez, a relação do personagem com as mulheres que tortura e mata assusta, mas necessário também prestar atenção na relação deste com o senador, um tipo vaidoso que, se julgando esperto e acima do bem e do mal, se torna presa fácil do psicopata.

A maneira como o personagem usa seus atributos físicos e sua verborragia galanteadora para seduzir suas vítimas, me fez lembrar a história do homem que, podendo adotar qualquer animal de estimação, preferiu adotar uma serpente de olhos verdes.

Na verdade, trata-se de uma fábula e, como eu já expliquei em textos anteriores, toda fábula traz embutida uma mensagem moral que deve servir de reflexão.

O homem desta fábula era rico e poderoso. Bom com os negócios e péssimo no trato com as pessoas. Incapaz de oferecer afeto verdadeiro, escolhia suas companhias pela utilidade prática e não pelo caráter. Amigos e companheiros, para ele, tinham uma única utilidade: provar ao mundo o quanto ele era importante. Só desfrutavam de sua intimidade os que eram ricos ou bonitos e, por essa razão, mesmo cercado de bajuladores, se sentia sempre sozinho. Um dia esse homem saiu para dar um passeio e chegou próximo a uma floresta onde se deparou com uma imensa cobra de olhos verdes. O animal pertencia a uma espécie venenosa cuja picada era fatal. Qualquer pessoa normal teria fugido, mas ele não era uma pessoa normal, era um vaidoso que se achava com poder suficiente para controlar a natureza das coisas e pessoas e moldar essa natureza de acordo com sua vaidade. Por isso, extasiado com a beleza do réptil, ele começou a imaginar o sucesso que faria se chegasse diante dos conhecidos exibindo um animal assim. Maravilhado com a ideia e esquecendo todos os riscos, o homem levou a serpente para a casa e passou a exibi-la como quem exibe um troféu. A serpente não gostava nada da maneira como era tratada, mas, astuta, ela abafava sua natureza e, sempre que solicitada, vinha mansamente se enrolar nas pernas e braços do seu mantenedor, fingindo amor e devotamento. Calculista e conhecedora da natureza vaidosa que condena o ser humano a acreditar apenas naquilo que lhe é favorável, a serpente usava da lisonja para convencer o homem que tudo o que diziam de negativo sobre ele eram inverdades e tinham como objetivo desmerecê-lo. Orgulhoso e cego pela vaidade, ignorando até a imagem que o espelho refletia, o homem preferia acreditar nos elogios da serpente e condenava ao exílio amigos, empregados e qualquer um que ousasse alertá-lo. Com isso foi ficando a cada dia mais sozinho. E quanto mais sozinho ficava mais se apegava aquilo que lhe dava a falsa sensação de poder. A vida para ambos se transformou em um jogo, onde o homem achava que estava no comando porque era rico e podia pagar e a serpente achava que a poderosa era ela que, por ser linda, merecia receber. E assim, entre o homem vaidoso e a serpente meretriz, foi se desenvolvendo uma relação conflituosa marcada por brigas constantes e acusações múltiplas, uma relação baseada em interesses e não em respeito. Uma relação onde o homem exigia a cada dia mais devoção enquanto a serpente exigia a cada dia recompensas maiores. Uma noite, enquanto tomava um banho de chuveiro, o homem sentiu uma picada no calcanhar. Assustado, olhou para baixo e deu de cara com a serpente. Sentindo o veneno se espalhar pelo corpo e a morte que se aproximava, ele indagou o porquê de tamanha traição. A serpente, fixando nele aquele par de imensos olhos verdes, explicou, sem culpa, que não havia traição nenhuma, porque ele, quando a encontrou na floresta e a trouxe para casa, sabia os riscos que estava correndo, pois conhecia sua natureza. No dia seguinte, quando os empregados chegaram, encontraram o homem morto. A serpente nunca mais foi vista.

A moral contida nesta fábula foi traduzida no século XIX por Honoré de Balzac, escritor francês conhecido por sua profunda capacidade de traduzir o psicológico dos personagens, e deve servir de alerta para todos nós membros de uma sociedade que transforma até os afetos mais profundos e necessários em mercadoria com valor monetário. Uma sociedade onde nem mesmo um sorriso é dado sem que antes se pergunte o que vai se ganhar com isso. Infeliz o homem que acredita em elogios de bordel.

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

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