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Comportamento

Amor é cristão... Sexo é pagão?

Amor cristão Sexo pagão
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O clima bélico que tomou conta das últimas eleições trouxe à tona a homofobia que perpassa parte da sociedade brasileira. A questão do homossexual no Brasil está ligada, como não poderia deixar de ser, ao medo que o ser humano tem do diferente.

O fato se torna ainda mais grave se levarmos em conta que fazemos parte de uma sociedade cuja cultura está fortemente calcada na educação judaico-cristã que sempre pregou que o sexo só deve ser praticado com o objetivo de procriação. Até o século XVII, uma mulher que admitisse ter ido para a cama com o marido por prazer e não para procriar era excomungada. Até hoje, mulheres que assumem gostar de sexo são tidas como “sem vergonhas”. Se isso é assim em relação à heterossexualidade imagine então em relação à homossexualidade, que até bem pouco tempo era tida como doença.

Famoso a partir dos anos 1960 quando publicou um relatório que influenciou de maneira muito forte a sociedade americana, o Dr. Charles Kinsey criou uma tabela que divide a sexualidade humana em sete categorias, que vai da heterossexualidade exclusiva até a homossexualidade exclusiva. Situados entre esses dois extremos estariam: o heterossexual ocasionalmente homossexual; o heterossexual mais do que ocasionalmente homossexual; o igualmente heterossexual e homossexual, também chamado de bissexual; o homossexual mais do que ocasionalmente heterossexual; o homossexual ocasionalmente heterossexual.

Antes do advento do cristianismo, Aristófanes, dramaturgo grego do século 4 a.C., desafiado por Sócrates a explicar o que entendia sobre o amor, promoveu o seguinte discurso: Outrora todos os seres eram duplos; com quatro mãos e quatro pés, um pescoço e duas cabeças opostamente colocadas. Possuíam duas genitálias colocadas na parte posterior. Alguns destes seres, chamados filhos do sol, possuíam dois sexos masculinos. Outros, chamados filhos da terra, possuíam dois sexos femininos. E havia ainda um terceiro, os chamados filhos da lua, que possuíam um sexo masculino e um outro feminino. Por serem duplos, eles se sentiam completos e fortes. Tão fortes que resolveram desafiar os deuses, e esses enfurecidos com tal ousadia, resolveram castiga-los. Cortaram os seres no meio de maneira que o que era uno se tornou duplo. Depois de corta-los, os deuses viraram a cabeça para que não pudessem ver o próprio sexo, que ficou na parte de traz. E para que sofressem mais ainda, foram espalhados pelo mundo bem longe da sua metade. Solitários, esses seres que antes se sentiam completos, iniciaram uma busca desesperada pela sua outra metade, e quando se encontravam, se abraçavam num desejo louco de se juntarem novamente em um só. Mas como o sexo estava na parte de traz, o encontro destes seres era um encontro estéril e sem prazer, e com isso a raça humana, incapaz de se reproduzir foi desaparecendo. Para resolver este problema, os deuses resolveram que o sexo deveria ser colocado na parte da frente e assim foi feito e, a partir daí, sempre que um filho da lua com o sexo masculino, encontrava sua metade com o sexo feminino, acontecia a procriação, e quando um filho do sol que tinha sexo masculino encontrava sua metade com sexo masculino ou uma filha da terra com seu sexo feminino encontrava sua metade com o sexo feminino, mesmo não havendo a procriação, havia o prazer, que saciava os desejos e enchia os seres de alegria, tornando-os fortes e felizes.
É dai que se origina o amor que as criaturas sentem umas pelas outras, um amor que está sempre buscando recompor a antiga natureza, querendo sempre fazer de dois um, para restaurar a antiga perfeição que a separação destruiu.

Como filósofo, gosto de pensar que o ser humano é de fato multifacetado e impossível de ser enquadrado dentro desta ou daquela categoria, principalmente naquilo que tange aos relacionamentos afetivos e sexuais e, portanto, a questão não deve ser tratada a partir de relatórios médicos e muito menos a partir de dogmas religiosos, mas sim a partir da certeza que aquilo que nos leva a buscar a companhia de alguém é a necessidade de amar e ser amado.”

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.