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Comportamento

Falta de Vergonha

Vergonha

Vergonha é o nome que se dá àquele sentimento que toma conta da gente quando cometemos um ato indecoroso que prejudica o Ser Humano e atenta contra a moral vigente.

Vivemos em um mundo onde as pessoas perderam a vergonha.

Quando digo que a sociedade moderna é uma sociedade marcada pela falta de vergonha, não estou me referindo à maneira como as pessoas se vestem com pouca ou muita roupa ou à maneira como as pessoas vivem e explicitam suas afetividades e suas sexualidades, mas à maneira como, na ânsia para se tornar mais rico e mais poderoso, o homem, sacrificando a ética e o humanismo, faz do semelhante um meio para alcançar um fim.

O olhar do outro deixou de me constranger porque o outro deixou de ter qualquer importância. O que era motivo de desonra se tornou motivo de orgulho. Aquilo que se fazia escondido, hoje se faz em público. A internet está cheia de vídeos registrando situações patéticas, desumanas e constrangedoras.

A vilania e a desonestidade fazem parte do nosso dia-a-dia.

Vejo pai saindo com filho para comprar produtos pirateados. Profissionais que apresentam atestados médicos fajutos para justificar o dia de trabalho perdido na farra. Filhos que abandonam pais idosos em casas de repousos e justificam tal crueldade dizendo que os pais velhos atrapalhavam a vida. Vejo mães incentivando filhas e filhos a usarem a beleza e a juventude para alcançar aquilo que desejam. Empresas maquiando embalagens de produtos tradicionais de maneira a enganar o consumidor. Políticos que roubam milhões. Líder espiritual extorquindo os desesperados que buscam consolo na fé. Madames que param em filas duplas em frente às escolas. Executivos que estacionam em vagas de deficientes. Escolas que transformam estudantes em clientes para vender certificados.

Fomos educados para acreditar que pornografia está diretamente ligada a um produto que retrata o sexo de maneira nua e crua. Como filósofo e diante de tudo o que tenho visto, penso que está na hora de rever e modernizar este conceito, uma vez que aquilo que afronta nossa existência não é mais a genitália desnuda.

Quantas curtidas merece a foto da mãe apontando a arma para a cabeça da filha? O que espera um rapaz que posta uma foto onde aparece pregando um cãozinho na cruz? Ou o carcereiro que fotografa e coloca no facebook a foto de prisioneiros decapitados?

Tudo tão acintoso e imoral que chega a ser pornográfico. Mas não pornográfico no sentido sexual ou de produtos comercializados com o objetivo de excitar as pessoas, mas pornográfico no sentindo baixo, grotesco o suficiente para violentar qualquer regra moral.

Pornografia hoje é o discurso de políticos que pretendem convencer a todos que roubar o dinheiro da saúde, da educação e da segurança é condição sine qua non ;para manter as alianças políticas que sustentam a democracia. Pornográfico são os corredores de hospitais abarrotados de doentes. As penitenciárias que se transformaram em masmorras onde homens que deveriam ser recuperados são depositados e esquecidos ou decapitados. São estudantes que avançam para as universidades sem saber ler e se graduam sem saber fazer um “O” sentado na areia.

O discurso da liberdade que tomou conta do mundo após o final da Idade Média, quando o homem deixou de acreditar em uma força superior que governava seus atos e passou a seguir os ditames do capitalista que se ajoelha diante do “deus” dinheiro, transformou a necessidade de levar vantagem em tudo e sobre todos, na regra moral mais importante. Como resultado disto, temos os espetáculos desavergonhados que assistimos e, não raro, protagonizamos sem o menor constrangimento.

Em uma sociedade que, graças ao progresso nas ciências, artes, indústria e política, erroneamente acredita ter atingido o grau máximo de evolução, se faz necessário mais uma vez perguntar se todo esse indiscutível progresso também foi acompanhado de um progresso moral.

Se a imoralidade, que antes chocava, hoje é praticada em praça pública, sob os holofotes com a cobertura e anuência da mídia e aplausos de muitos, se o sujeito que se esforça para ser bom e honesto como um fraco despreparado, então a resposta é não. Não estamos evoluindo moralmente, mas ao contrário, estamos regredindo à condição de animais irracionais.

Mas também não adianta olhar a sociedade com olhar crítico acreditando que não temos absolutamente nada a ver com isso. A sociedade não é um todo abstrato, mas o resultado de ações levadas a cabo por cada um de nós. Pode ser cômodo justificar nossa violência na condução do carro dizendo que o trânsito é violento, no entanto, o trânsito violento nada mais é que a soma de milhares de motoristas.

Assumir a responsabilidade individual é o primeiro passo para mudanças. Se a sociedade não tem regras ou se você não concorda com as regras da sociedade, cabe a você criar seu próprio código de conduta. Quem se sabe melhor, não pode se nivelar por baixo. Agir certo não fará com que você deixe de se sentir constrangida pela falta de vergonha alheia, mas com certeza fará com que você sinta orgulho daquilo que você é.

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

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