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Comportamento

Pega o pau e bate uma!

Pega o pau e bate uma!

A sociedade moderna, por culpa do capitalismo que sobrevive graças ao consumo, se especializou em criar moda.

Grandes campanhas publicitárias são pensadas para vender as novidades lançadas todos os dias. Vale tudo para transformar o novo em moda.

A moda não se restringe só a roupas, mas a tudo que envolve o ser humano. Temos a religião da moda, a doença da moda, a modelo da moda, a cantora da moda, a atriz ou ator da moda, o político da moda.

Ninguém sabe bem como a moda surge, mas de repente ela contagiou a todos. No início encontra resistência dos chamados reacionários. Isso é natural, tudo que é desconhecido causa medo e o instinto de sobrevivência leva o ser humano a querer destruir tudo aquilo que o assusta.

Foi assim com o rock in roll que, quando surgiu, era considerado coisa do diabo e verdadeira obscenidade. Hoje não conheço uma só pessoa que não goste de rock. Também foi assim com a minissaia, o cabelo comprido e o brinco para homens.

Tem moda que vem, causa furor, e desaparece. Por isso muita gente se refere à moda como “uma onda”.  Mas tem coisa que vem para ficar.

A indústria tecnológica também vive de lançar moda. E como não poderia ser diferente, as novas tecnologias costumam assustar. Foi assim com a máquina a vapor que marcou o início da Revolução Industrial. Com o ventilador que muitos chamavam de máquina de fazer vento (e era considerado uma grande bobagem) e com a fotografia que foi combatida e acusada de ser uma ameaça à arte verdadeira.

Agora a ferramenta da moda é o chamado pau de selfie. Não sei quem inventou essa geringonça e também não sei se ela tem um nome oficial, mas a coisa virou moda e está em todos os lugares; nos restaurantes, nas escolas, nas igrejas, nas praças, nos shows, nos metrôs, trens e aviões, na praia e no campo.

Os camelôs da 25 de março e as lojas dos shoppings mais caros da cidade vendem dezenas de unidades diariamente.

Se o selfie já era um saco, com o tal pau se transformou em aberração.

Academicamente eu poderia explicar o selfie, e o pau de selfie, como consequência do desejo narcisista do indivíduo inserido em uma sociedade midiática que o leva a acreditar ser o centro do universo.

Filosoficamente eu poderia utilizar a lógica formal (que não tem qualquer compromisso com a verdade, mas sim com a validade e camufla grandes falácias), para explicar e defender aqueles que fazem desta vara uma ferramenta tão necessária como a vara de bambu é para o pescador do interior. Mas não farei isso. E não farei simplesmente porque considero esse tal pau de selfie motivo de constrangimento pela falta de vergonha alheia.

Até diria que é brega, se a palavra brega não tivesse perdido completamente o sentido com a ascensão desta nova classe média formatada pela mídia que enriquece produzindo cultura para a massa. Pessoalmente acho de um irritante mau gosto. 

Podem me chamar de elitista, reacionário, preconceituoso. Podem até me chamar de ultrapassado. Prefiro ser chamado de tudo isso e muito mais, a aceitar como natural que uma senhora bem vestida, com cara de professora, dentro da Pinacoteca de São Paulo e diante de uma multidão que apreciava a exposição de Ron Mueck, peça em alto e bom som ao adolescente que a acompanhava:

--- Henrique, pega o pau e bate uma!

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.