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Comportamento

Adeus também foi feito para se dizer

Adeus foi feito pra se dizer

Não por acaso a filosofia prega que o homem é a medida de todas as coisas; cada um de nós é fruto daquilo que viu, ouviu e viveu.

Nascemos sem saber absolutamente nada. São as experiências cotidianas que irão nos ensinar a falar, ouvir, sentir. O processo de educação tem início assim que saímos do útero materno.  A partir daí tem início o longo processo de aprendizado; comer, beber, fazer a higiene, amar odiar, temer...

Todo ser humano nasce com uma estrutura que possibilita o aprendizado. Dizer que alguém é mais ou menos inteligente é uma falácia. Grosso modo podemos definir inteligência como a habilidade de resolver um determinado problema. Habilidade esta que pode ser desenvolvida através da educação. Se você estuda matemática terá facilidade em resolver problemas matemáticos.  Se aprender a cozinhar saberá como preparar uma refeição quando a fome bater. Se aprender chinês não terá dificuldades para caminhar nas ruas de Xangai.

Quem nasceu no interior e já teve a oportunidade de trabalhar com animais, sabe que o burro quando se depara com um obstáculo inesperado empaca, não sai do lugar e fica sem ação. Por isso a palavra "burro" passou a ser, popularmente, empregada como antônimo de inteligência. O termo certo no caso seria ignorância, que significa ausência de conhecimento sobre determinado assunto. O ignorante não possui habilidade para suplantar os obstáculos que surgem.

Ninguém é “inteligente” em tudo. A pessoa pode ser um gênio matemático, mas não saber fritar um ovo. Ou pode ser um poliglota incapaz de controlar suas emoções. Por isso, ser ou não inteligente é questão relativa.

Hoje se fala muito em inteligência emocional, que os psicólogos definem como a facilidade para administrar as emoções de maneira a não se deixar arrastar por elas. A falta de habilidade para lidar com emoções se manifesta principalmente na maneira como lidamos com as perdas.

Pais e professores passam a vida pregando que temos que vencer sempre. A televisão com sua propaganda consumista e os livros de autoajuda que prometem felicidade instantânea só contribuem para aumentar mais ainda a competitividade que o capitalismo coloca como condição obrigatória àqueles que querem ser felizes.

Essa obrigação de ser sempre o primeiro em tudo tem feito o homem regredir a um estado de natureza que sacrifica a humanidade e transforma a vida numa guerra do todos contra todos. Situações banais como estacionar o carro em uma vaga no shopping se transformam em uma disputa de vida ou morte.

Não somos super-heróis. Somos seres frágeis e dependentes de amor. Não podemos tudo e não vamos vencer sempre. Achar que podemos controlar tudo é criar uma expectativa que só trará infelicidade.

Somos seres limitados e condenados a viver sem saber de onde viemos e para onde vamos. Essa incerteza gera a sensação de fragilidade e nos impele a agarrar com unhas e dentes tudo aquilo que pareça oferecer segurança. 

Se não somos educados para saber lidar com as perdas mais banais, como então saberemos reagir diante das grandes perdas?

Por grande perda entenda-se a perda de um grande e verdadeiro amor. A perda de um filho ou a perda dos pais.

Não existe perda maior que a morte de um ente querido. O luto derruba todas as nossas estruturas. Perdemos a capacidade de ver as cores da vida. Perdemos a capacidade de sentir o gosto dos alimentos. Choramos. Sofremos. Nos desesperamos.

Se viver é um constante processo educacional, precisamos aprender que tudo vai se acabar um dia. Que, por mais que haja amor, todas as relações já nascem destinadas, de um modo ou de outro, a ter fim. Que não podemos controlar tudo. Que é preciso deixar a natureza seguir seu curso e as coisas e as pessoas seus rumos.

É natural que passemos a vida em busca de coisas e pessoas que nos deem segurança, mas não podemos perder de vista que nascemos sós e vamos morrer sós.  Que perder ou ganhar é possibilidade daqueles que tentam. E que aquilo que chamamos de fim pode ser apenas um novo começo ou a continuidade de um mesmo caminho que nós, graças a nossa ignorância, ainda não temos condição de perceber.

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

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