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Comportamento

E por falar em mulheres

E por falar em mulheres

Sobre Mulheres, Éguas e Vacas 

Há pouco tempo um pseudo-comediante, desses que confundem falta de educação com talento para o humor, disse em rede nacional que “se mulher não tivesse xoxota os homem nem sequer perceberia a existência dela”. Bárbaro, chocante, grosseiro e triste, mas reflete uma cultura machista onde as mulheres continuam sendo vistas apenas como um objeto que existe para satisfazer ao homem.

Fala-se muito em igualdade, mas o mundo ainda é estruturado a partir da ótica e dos interesses dos machos. A mulher tem direitos trabalhistas, conquistou o direito de votar, mas para assegurar o direito à felicidade ela precisa dançar conforme a musica orquestrada pelos homens. Se o ritmo é o funk, lá estão elas se portando como cachorras e descendo rebolando até o chão.

Fala-se muito em liberdade, mas as mulheres ainda são escravas de uma indústria que faz questão de lembrar todos os dias que a mulher não vale por aquilo que ela é, mas por aquillo que ela aparenta. Mulher não tem o direito de envelhecer. A moça da publicidade, que serve de modelo para vender produtos às mulheres de todas as idades, é jovem e bonita.  As musas e mocinhas da televisão são bundudas e siliconadas.  O programa de auditório do domingo, apresentado pelo gordo falastrão é direcionado também ao público feminino, mas a decoração do palco são dez ou vinte mulheres jovens que dançam com pouca roupa. A quem interessa isso?

É comum ouvir que as mulheres não devem fazer isso ou aquilo porque tal atitude desvaloriza a mulher. Nunca ouvi alguém dizendo que o homem não deve fazer isso ou aquilo porque tal atitude desvaloriza o homem. Quem, afinal, arbitra valores?

A história sempre se repete, às vezes como comédia, às vezes como tragédia. Antigamente os homens compravam éguas olhando os dentes, hoje escolhem a mulher olhando peito e bunda.

Em 1909, na cidade de Nova York, um grupo de operárias da confecção Triangle Shirtwaist, se juntou para reivindicar melhores condições de trabalho e salário. Foram dois anos de negociação, demissões e ameaças. Em 1911, as costureiras tomaram conta da linha de produção e fincaram acampamento prometendo que só sairiam dali quando o acordo fosse assinado.

Na tarde de 25 de março de 1911, quando as operárias reunidas no nono andar da fábrica esperavam uma resposta da empresa, começou um incêndio. As condições precárias de segurança, grande quantidade de material inflamável estocado, iluminação a gás e falta de extintores, fizeram com que o fogo se alastrasse rapidamente. Desesperadas, as mulheres tentaram fugir do local, mas descobriram que a porta tinha sido trancada por fora. Acuadas pelas chamas, muitas se jogaram do prédio. No final, o saldo da tragédia: 91 morreram queimadas e 54 morreram se jogando de uma altura de quase 20 metros.

Também para homenagear as mulheres vítimas da tragédia na Triangle Shirtwaist foi criado o dia internacional da mulher. Hoje, infelizmente poucos relacionam uma coisa à outra. Algumas empresas aproveitam o dia para oferecer flores às funcionárias.

Gostamos de nos pensar civilizados, mas diariamente mulheres são agredidas, desrespeitadas, discriminadas, violentadas e mortas pelo simples fato de serem mulheres.

Há pouco tempo, a imprensa noticiou que são comuns os casos de violência sexual contra mulher dentro do campus da USP, maior universidade pública do país. A notícia que deveria estarrecer nem causou grande repercussão.  

Considero que dedicar um dia exclusivamente à mulher já é uma forma de discriminação. Mas vamos aproveitar a data para pensar de forma adulta e pragmática sobre o assunto. Dizem os machos que homem não precisa de um dia específico porque todos os dias são dias de homens. E não é mentira. O macho é quem dá as cartas e dita  regras. E não fará nada para mudar essa situação. Cabe a mulher protestar, exigir punição, denunciar, não aceitar a imposição da mídia. Cabe a ela educar seus filhos para uma mudança de postura diante do feminino. Mulher não é vaca e, portanto, não pode e não deve se portar como gado que, ignorando a força que tem, se deixa levar mansamente para o matadouro.  

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

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