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Comportamento

IDEOLOGIA! Eu quero uma para MORRER!

Ideologia

Em momentos de tensões políticas, como o Brasil está vivendo agora, as consequências da alienação se tornam muito mais visíveis. Há tempos não ouvia tanto as palavras esquerda e direita. Gente que nunca estudou história sai gritando e apontando o dedo acusando o outro de ser esquerdista ou direitista. O Brasil entrou na era do confronto ideológico, arrastando para a guerra gente que nem sabe, de fato, o que significa ser de esquerda ou de direita.

O conceito esquerda e direita, relativo à política, teve origem durante o processo que envolveu a Revolução Francesa ocorrida em 1789. Naquela época, era comum que os membros dos partidos se reunissem em assembleia para discutir os rumos do país. Era uma gritaria só e no final não sabia quem estava defendendo o que e contra quem. 

Para organizar o caos ficou decidido que aqueles que fossem a favor do rei e contra a revolução deveriam ficar do lado direito da sala. E os que fossem a favor da revolução e contra o rei deveriam ficar a esquerda.

Com o passar do tempo, aquilo que fazia algum sentido dentro das assembleias francesas, passou a ser manipulado pela propaganda política, muito bem orquestrada para confundir e manipular o cidadão.  A dificuldade em saber quem realmente somos facilita a instauração de ideologias que visam alienar o indivíduo.

A esquerda passou a ser vista como uma ala progressiva, formada por democratas, socialistas, defensores da ecologia, da liberdade individual, das minorias, do livre agir e pensar ou, anarquistas (no mal sentido) que pregam a libertinagem, o uso da força para impor ideias comunistas, vândalos, que vestem vermelho, destroem igreja, não respeitam a família e comem criancinhas.

A direita passou a ser vista como uma elite branca conservadora e reacionária que só pensa em obter lucro e, em nome do capital, sacrifica a humanidade, os direitos humanos, o meio-ambiente. Gente autoritária que adota uma atitude fascista para garantir que tudo saia como eles desejam, mas faz investimentos que garantem o emprego dos mais pobres e paga uma alta taxa de impostos para sustentar gente que não trabalha e precisa do auxílio do governo para sobreviver.

A filosofia define a alienação como um processo que objetiva transformar o sujeito num estranho para si próprio.

O alienado perde a personalidade, deixa de ser sujeito e passa a ser massa. Incapaz de decidir sozinho, ele precisa de um mentor, um messias, um pai, um patrão, um salvador que lhe diga exatamente o que fazer e para onde ir. Instigado por políticos que apostam na velha política do dividir o povo ignorante para continuar no poder, o alienado se lança como camicase à causa que defende.

Aos olhos do alienado, líderes políticos se tornam semideuses e em nome deles o alienado comete qualquer barbaridade e está disposto a qualquer sacrifício. Deixa de respeitar as regras de civilidade e transforma a vida em campo de batalha.

O alienado pode até acreditar que está se portando como um guerreiro do bem lutando um bom combate, e que no final será sagrado heroi.  No entanto, é um insano que, incapaz de distinguir o certo do errado, sai destruindo coisa e pessoas que lhe são importantes.

Em 1912, a Igreja católica que tinha perdido o domínio da cidade de Jerusalém, convenceu pais e mães que a cidade seria libertada e os inimigos destruídos se um exército de crianças fosse formado. Ignorantes, presos a ideologia do catolicismo e incapazes de raciocinar, os pais permitiram que cerca de 20 mil crianças com idades entre 10 e 15 anos, marchassem para a guerra contra os “inimigos” da igreja. Foi um massacre. Nenhuma criança voltou. Os que não foram mortos, foram violentados e vendidos depois como escravos.

Nietzsche escreveu que a maior dificuldade do homem moderno é conhecer a si mesmo. Essa dificuldade se tornou ainda maior agora, quando a televisão se tornou formadora de todas as nossas opiniões. Difícil hoje encontrar alguém que, de fato, pensa por si mesmo. A maioria dos nossos pensamentos e crenças estão fundamentados naquilo que a mídia disse ser certo ou errado.  Estamos todos presos a opiniões e interesses exteriores e sem condição de descobrir de fato quem somos e o que queremos. Gostamos de nos pensar livres, mas somos todos, em maior ou menor grau, sujeitos alienados e incapazes de criar uma existência autêntica.

É claro que somos todos animais e como tais temos um lado que sempre nos impulsiona às disputas, conquistas e competições.  É natural. É saudável e necessário. Precisamos disso para sobreviver e não se entregar diante dos obstáculos da vida. Mas a quem interessa, de fato, transformar adversários em inimigos? Quem, no final, vai ganhar ou perder com isso?

Qual é, afinal, o objetivo de todos nós que nos lançamos em discussões políticas e religiosas? Não é fazer um mundo melhor onde todos possam viver em paz?  Se for isso, então por que nos portamos como bárbaros prontos a humilhar, agredir, matar, qualquer um que pense diferente de nós? Não é exatamente o respeito à diversidade que fundamenta os príncipios da democracia que todos nós juramos defender? 

Quando agimos como loucos, estamos, na verdade, criando o ambiente ideal para o caos e para a guerra que separa família, destroi amizades e rasga o tecido social que une todos nós.

E esses políticos que gravam vídeos e concedem entrevistas incentivando o confronto, querem mesmo um país melhor ou estão apenas utilizando o discurso da moralidade para cometer a imoralidade?

Pensem nisso!

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

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