5.0

Comportamento

JK - O menino que gostava de bolinho

O menino que gostava de bolinho

Era uma vez um menino que gostava de bolinho.
Até ai não há novidade porque todo menino gosta de bolinho.
Alguém conhece algum menino que não gosta de bolinho?

Mas acontece que esse menino gostava muito de bolinho. Mas gostava muito mesmo!
Gostava tanto que comia bolinho no café da manhã... No almoço... E no jantar.
Ele também comia bolinho no lanche da tarde e antes de dormir.
E adivinhem o que ele levava na lancheira para comer na hora do recreio? Se você disse bolinho, acertou.
Ele gostava de bolinho de todos os tipos.
Gostava de bolinho de chuva que só sua avó sabia preparar.
Gostava de bolinho de fubá que a tia do interior trazia sempre que vinha visitar a família.
E gostava até do bolinho de espinafre que a mãe preparava e dizia que era saudável.
Ele demorou a descobrir o que significava um bolinho saudável, mas muito cedo aprendeu que significa um bolinho gostoso.
Por isso ele gostava tanto de bolinho.
Esse menino gostava tanto de bolinho que os amigos da escola passaram a chamar ele de Bolinho.
Era Bolinho para cá! Bolinho para lá! A professora,preocupada e achando que chamar o menino que gostava de bolinho de Bolinho era bulling lembrou aos colegas que o menino que gostava de bolinho, tinha nome; ele chamava-se José.
Os alunos aprenderam e a partir daquele dia não chamaram mais o menino que gostava de bolinho de Bolinho, passaram a chamar ele de Zé Bolinho.
E sabe de uma coisa? Chamar o menino de Zé Bolinho, não era bulling.
Bulling é quando a pessoa se sente humilhada, agredida, acuada, desprezada. E o menino que gostava de bolinho não sentia nada disso, mas ao contrário, ele gostava tanto de bolinho que gostava de ser chamado de Zé Bolinho ou simplesmente de Bolinho pelos íntimos.
E, como sempre acontece com os meninos, o Zé Bolinho cresceu, foi para a faculdade e se formou em engenharia. Porque além de gostar de bolinho ele também gostava de estudar.
A família ficou muito orgulhosa por ter um engenheiro na família. E para comemorar fizeram uma festa. E adivinhem o que mais tinha nessa festa? Bolinhooooos! Muitos bolinhos.
A avó trouxe bolinhos de chuva! A tia do interior, bolinhos de fubá! A mãe, que nunca descuidava da alimentação, trouxe bolinhos de espinafre, bolinho de cenoura e bolinho de carne.
O menino que gostava de bolinho nunca tinha tido tantos bolinhos de uma vez.
E no meio de tantos bolinhos ele descobriu aquilo que muita gente já sabia; ele não gostava de engenharia, gostava mesmo era de bolinho.
O menino, que já não era tão menino, ficou preocupado e pela primeira vez achou que gostar de bolinhos era um grande defeito que precisava ser corrigido. Mas a avó que, além de fazer bolinhos de chuva, sabia tudo da vida, disse que Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
O menino passou a noite inteira pensando naquilo que a avó disse e no dia seguinte ele voltou para a faculdade , fez um curso de gastronomia e abriu uma loja especializada em... Bolinhos.
Em homenagem aos amigos da escola colocou o nome da loja de Zé Bolinho.
Foi um sucesso. Aquilo que parecia um defeito se tornou motivo de orgulho.
O menino que gostava de bolinho ganhou muito dinheiro. Casou e teve um filho que adorava, adivinhem o que?
Se você disse bolinho, errou. O filho do menino que adorava bolinho adorava hambúrguer!
Mas isso é outra história.

Julio Kadetti


Julio Kadetti

Filósofo

 Julio Kadetti é escritor, roteirista, filósofo graduado pela Universidade Mackenzie e Sociólogo Pós graduado pela Universidade Gama Filho.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.